Prof. Dr. Miguel Srougi

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Uma vida devotada aos problemas da próstata

O Professor Dr. Miguel Srougi é pós-graduado pela Harvard Medical School em Boston, Estados Unidos, tem mais de 35 anos de carreira, uma dezena de livros publicados e mais de cem artigos na imprensa espalhados pelo mundo fora. O Prof. Srougi tem a simplicidade
daqueles que muito sabem, pouco ostentam e continuam lutando. Dedica-se integralmente ao que faz - trabalha todos os dias, das
7 da manhã às 10 da noite - é casado, pai de dois filhos e afirma
que se envolve demais com seus doentes. Costuma dizer "Sofro
muito e esse sofrimento é um dos fatores de sucesso da minha carreira, porque acabo entregando-me mais aos doentes". Embora
viva intensamente entre os limites das dores pela perda de alguns
e as alegrias do resgate de muitas vidas, o Prof. Srougi, aos 60 anos, “abastece-se” de coragem e disposição lecionando na Faculdade de Medicina, que diz ser "uma das minhas razões existenciais".

Recentemente inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa
para os seus alunos, conseguindo verbas entre os seus próprios doentes, sendo alguns dos mais poderosos e bem sucedidos homens na sociedade Brasileira. O novo Centro ganhou o nome de Vicky Safra, mulher de Joseph Safra - em homenagem ao banqueiro que doou a maior parte dos seus recursos a este empreendimento.

No texto abaixo, o maior especialista em cancro de próstata no Brasil afirma que "todo homem nasce programado para ter a doença" e que, “se viver até os 100 anos, inevitavelmente vai contraí-la”.

Fala sobre os medos dos homens, os seus fantasmas, a impotência, os novos tratamentos e os seus sonhos pessoais.


Assombros masculinos

Os homens têm uma certa sensação de invulnerabilidade - isso faz parte da sua maneira de pensar. Passam boa parte da sua vida livres dos incômodos que a mulher tem com a menstruação e gravidez, fazendo com que relaxem mais com a sua saúde. Com o passar dos anos, começam a perceber a sua vulnerabilidade e passam a dar um pouco mais de valor aos cuidados com a sua saúde.

O que mais os atemoriza hoje em dia quando a idade vai avançada? Problemas com a próstata, disfunções sexuais e a decadência física, que mexe muito com a cabeça das mulheres, mas também com a deles. As mulheres pautam muito a vida em função da beleza e os homens, da força, da virilidade, da capacidade de raciocinar, de decidir e agir.

E na hora em que surgem falhas nessas áreas, eles percebem que, talvez, não sejam aqueles seres imortais que achavam que fossem.

Envelhecimento

Há dois profundos temores hoje nos homens: o primeiro é o crescimento benigno da próstata, um fenômeno que ocorre em praticamente todos eles: a próstata aumenta sempre de tamanho depois dos 40 anos e, dessa forma, o canal da uretra vai ficando obstruído.
Isso faz com que o homem comece a urinar mais frequentemente, tendo menos controle da sua função urinária, e por isso a ter de evitar reuniões prolongadas, a ter de se levantar durante a noite para urinar, prejudicando o sono e acordando muitas vezes mal disposto.
O crescimento benigno é quase inexorável: todos os homens vão ter em maior ou menor grau - felizmente, apenas um em cada três têm sintomas mais significativos que exigem apoio médico.
Nesses casos, há medicações que desobstruem parcialmente a uretra e fazem o indivíduo urinar e viver melhor; apenas 4 a 5% dos homens têm de fazer uma cirurgia para desobstruir a uretra por causa desse crescimento benigno.
Essa é uma cirurgia que se faz hoje em dia com segurança e sem os inconvenientes de uma cirurgia maior mais comum nos casos de cancro. Ela remove apenas o fator obstrutivo, o homem passa a viver melhor e sem nenhuma sequela. Esse crescimento não tem causa conhecida, surge por um desequilíbrio hormonal no homem maduro, ou seja, as células da próstata passam a se proliferar em decorrência dos hormônios. Não há forma de este crescimento da próstata ser evitado.

Realidade nua e crua

O cancro na próstata adquire maior relevância porque tem uma grande prevalência: 18% dos homens - um em cada seis - manifestarão a doença. E também porque o tumor, que ocorre com muita frequência dentro da próstata, é eliminado com sucesso em 80 a 90% dos homens. Se esse tumor não é identificado no momento certo e se expande, saindo para fora da próstata, as possibilidades de cura caem para 30%.

É um tumor muito comum e se for detectado a tempo, tem como ser curado.

Dos 18% acima referidos, somente 3% morrem desse problema - a medicina consegue curar 15% dos homens, ou seja, a maioria. Mas vale dizer que todo homem nasce programado para ter cancro de próstata. Ou seja, nós temos, nas nossas células, genes que as estimulam a tornar-se cancerosas e esses genes ficam bloqueados durante a maior parte da nossa existência. Quando o indivíduo envelhece, esses mecanismos de bloqueio deixam de exercer o seu papel e o cancro começa a manifestar-se. Com isso vai aumentando a frequência da doença e todo homem que chegar aos 100 anos vai ter cancro de próstata.

Sem fantasia

O exame de toque retal - um dos meios de se detectar a doença - gera na cabeça dos homens fantasias negativas e receios, mas, na verdade, eles o que têm mesmo é muito medo da dor. Tanto é assim que os homens que fazem o toque retal pela primeira vez, no ano seguinte perdem o medo. Leva três ou quatro segundos e não dói. Então, um dos fatores de resistência é eliminado. Existe um segundo sentimento, que é muito forte: expressar ou exteriorizar uma fraqueza se a doença da próstata for descoberta.

O homem tem pavor disso porque, de acordo com todas as ideias evolucionistas, só vão sobreviver aqueles que forem fortes. É comum descobrir-se um cancro no indivíduo, e ele entrar em pânico, não pela doença, mas porque as pessoas vão ficar a saber. Porque o cancro é muito relacionado com morte, decadência física, perda da independência e por isso dependência dos outros. O homem não aceita facilmente essa ideia, e prefere fechar os olhos e “enfiar a cabeça na areia” a ter de enfrentar as pessoas que vão ficar a saber ser ele um ser mais fraco. Isso vai afetar a imagem dele, acha que vai perder poder sobre outras pessoas, porque ninguém obedece a um fraco, alguém que vai morrer. Isso vai contra a ideia que nós homens temos de ser mais fortes para sobreviver.

A performance do robô

Estamos já há algum tempo fazendo cirurgias com robô, que permitem uma visão muito mais precisa do campo cirúrgico, eliminando os tremores da mão do cirurgião, permite incisões pequenas, uma operação muito mais perfeita porque os movimentos do robot são muito suaves. Nos Estados Unidos já se faz cirurgia robótica em larga escala.

Tenho mais de 2.900 pacientes operados de cancro de próstata pessoalmente. Eu sou o terceiro cirurgião do mundo nesse quesito - só perco para dois americanos e eles estão próximos de se reformar. Apesar de ter essa grande experiência, quando comecei a operar, 35% ficavam com incontinência urinária grave. Agora são só 3%. Impotentes, todos também ficavam. Hoje, se o homem tem menos de 55 anos, a incidência é de 20% - antes era 100%.

Há também enxertos de nervos, porque a impotência se deve à remoção de dois nervos que passam perto da próstata e nós estamos fazendo esse enxerto quando somos obrigados a retirá-los nos casos em que a localização do tumor a isso obriga. Entre os doentes que fizeram os enxertos, metade voltou a ter ereções com o tempo.

 

Impotência, o que fazer?

Os novos remédios para tratar a disfunção sexual resolvem 1/3 da impotência, tanto após a cirurgia quanto depois da radioterapia. Se os comprimidos não atuarem, existem injeções.

Existem ainda próteses penianas que são muito desenvolvidas e produzem uma ereção que quase não tem nenhuma diferença física em relação à normal.

Isso permite que o homem reassuma a vida sexual plenamente e que as mulheres tenham muita satisfação.

O papel das mulheres

Os homens são resistentes: eles relutam muito em ir ao médico fazer um exame de próstata e só vão quando a mulher os empurra: dois terços dos pacientes no consultório de Miguel Srougi são trazidos por elas.
"Ligam para marcar a consulta e acompanham o homem. Mas existe um outro significado da importância da mulher. Primeiro, que ela é pragmática e incentiva o marido. Mas, por que ela quer isso?. Porque a mulher que viveu bem com o seu marido durante mais de 30 anos e conseguiu superar todos os embates da vida conjugal, representa um casal que o tempo consolidou. E aí a mulher tem um sentido de preservação da família muito mais forte que o do homem. Passadas as tempestades e oscilações do relacionamento, ela não quer que o marido morra. É real. Toda vez que tenho um doente ofereço dois tratamentos: um que aumente a existência dele, mas vai, por exemplo, causar alguma deficiência na área sexual.

E um outro, que cura menos, mas preserva melhor a parte sexual. O homem balança na decisão. A mulher nunca hesita. Ela prefere aquele que aumenta a existência, mesmo correndo o risco de comprometer a vida sexual dele e do casal. Poucas vezes vi uma mulher aconselhar um tratamento que dê menos tempo de vida ao seu marido ou companheiro e aumente a possibilidade de ele continuar potente. Dá para contar nos dedos. Ela quer o companheiro, quer preservar aquela pirâmide que foi construída, que é rica."

Sofrimentos e privilégios

Eu me envolvo muito com meus pacientes. Sofro muito. E esse sofrimento é um dos fatores do sucesso da minha carreira, de 35 anos. Nesse sofrimento eu acabo entregando-me mais e mais aos doentes. Isso é mau, porque não tenho vida pessoal, minha vida familiar é feita nos intervalos. Felizmente, os momentos bons prevalecem sobre os ruins. É por isso que eu sobrevivo. Um doente que coloca a cabeça no meu ombro e me agradece por ter feito algo por ele, ou deixa correr uma lágrima na minha frente, me faz ultrapassar aqueles momentos em que me senti totalmente impotente.
Uma das coisas importantes é o médico saber e demonstrar que a medicina não é infalível e ele não se sentir omnipotente. O urologista tem um privilégio. O oncologista mexe com cancro avançado, já no fim do caminho - eu lido com o inicial. Eu consigo salvar muita gente. É um privilégio para mim.

Medo da separação

Nós não queremos morrer. Primeiro, pela incerteza do que vem depois. Segundo, porque a morte implica extinção e o ser humano não aceita a aniquilação. A nossa cabeça nasceu para ser imortal. A morte está relacionada com dor, sofrimento, decadência física, a desfiguração, a perda do papel social, desamparo da família, perdas dos prazeres materiais, da independência. Mas a causa verdadeira é o nosso horror de nos separar das pessoas que amamos.

Os hospitais

Os verdadeiros templos na Terra são os hospitais - não as igrejas. Nas igrejas tem muito ouro, riqueza. Aqui não, você conhece o sofrimento, o valor da existência humana. Os orgulhosos e os soberbos ficam humildes, ricos e pobres são iguais; os maus, os autoritários e os maldosos se tornam condescendentes: eles ficam despidos, tiram a máscara; é aqui que você conhece o que é viver, que resgata para a vida, não em uma igreja qualquer, que o sujeito entra lá, reza dez minutos e sai. Mas aqui nós curamos a alma e o corpo. Esse é o verdadeiro templo, onde o ouro é a vida.

Um pouco de filosofia

A melhor forma de se transmitir as virtudes é pelo exemplo, pela coerência.

Certa vez perguntaram ao filósofo Sócrates como a virtude poderia ser transmitida - se pelas palavras ou se conquistada pela prática. Ele não soube responder. Então, Aristóteles, depois de uns anos, respondeu: "A virtude só pode ser transmitida pela prática e por meio do exemplo". Aqui, eu posso tentar ser o exemplo. Mudando o quotidiano das pessoas, transformando a sociedade e construindo um novo mundo.

Medidas preventivas

Segundo Miguel Srougi, a prevenção ao cancro de próstata é feita de forma um pouco precária, porque não existem soluções para impedi-lo.

Na prática, há o Licopeno, que é o pigmento que dá cor ao tomate, à melancia e à goiaba vermelha. "Talvez diminua em 30% a possibilidade de contrair o cancro da próstata, mas esse dado é controvertido, por causa disso a gente incentiva os homens a comerem muito tomate, só que deve ser ingerido sobretudo pós-fervura, ou seja, precisa ser transformado em molho de tomate”.

A vitamina E também reduz teoricamente os riscos em 30 a 40%. Mas, se for ingerida em grandes quantidades, produz problemas cardiovasculares. Na verdade, se o homem quiser se proteger, deve tomar uma cápsula de vitamina E por dia. Acima disso, não é recomendável.

O terceiro elemento é o Selênio, um mineral que existe na natureza e é importante para manter a estabilidade das células, impedindo que elas se degenerem, que é encontrado em grande quantidade na castanha-do-Pará. "Qualquer homem pode ingerir em cápsulas, mas se ele comer duas castanhas (do Pará) por dia, recebe uma certa proteção", diz o especialista.

Uma quarta medida é comer peixe, se possível três vezes por semana - rico em omega 3 e tem uma ação anticancerígena.

 

Dr. Miguel Srougi
Professor Titular de Urologia
Faculdade de Medicina da USP – FMUSP, São Paulo, Brasil